5.0
Publicado por Marcos Melhado
Os Despossuídos é uma ficção científica incomum, utópica e distópica, sobre dois planetas gêmeos separados por conflitos e desconfianças, e um homem que arriscará tudo para reuni-los. Urras é um mundo de abundantes recursos dividido em vários estados-nação. Em meio a extremos de riqueza e pobreza, dois deles estão em guerra para estender sua influência – e seu sistema político – sobre os demais. Anarres, por sua vez, é o planeta recluso e anarquista gêmeo de Urras, cuja visão utópica de seus colonizadores acabou criando uma ilusão de sociedade perfeita. Essa ilusão só é quebrada quando Shevek, um jovem físico brilhante de Anarres, descobre a Teoria da Simultaneidade, uma ideia que pode acabar com o isolamento de seu planeta e, ao mesmo tempo, avivar as guerras do planeta vizinho. Seguindo o estilo de Le Guin, este livro aborda questões de fundo sociológico, como liberdade, desigualdade, individual versus coletivo, e temas políticos cruciais, como anarquismo e polarizações políticas. Embora seja fruto da influência da Guerra Fria, este livro continua cativante e extremamente atual.

l RESENHA: OS DESPOSSUÍDOS – URSULA L. LE GUIN

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica;

Páginas: 384

Nota: 5.0/5.0

Não tem como iniciar esse texto sem destacar que isso é literatura de alta qualidade!

A história se passa entre dois planetas, Urras e Anarres, um sendo a lua do outro (considero um sendo o duplo do outro). O protagonista, um físico de Anarres, está sendo transferido para Urras, aparentemente para desenvolver uma nova teoria física. No decorrer da história descobrimos que Anarres foi colonizada há quase 200 anos por homens vindos de Urras, idealistas que não viam mais possibilidade de vida dentro do sistema capitalista. Criaram então uma sociedade anarquista-socialista, sem governo, sem posses. Daí o nome do livro “Despossuídos”.

Esses idealistas criaram um sistema baseado na fraternidade e compartilhamento de bens: os adultos moram em dormitórios coletivos, e as crianças também possuem o seu, pois desde cedo é importante aprender a socializar. As refeições são feitas em cantinas, também de modo coletivo. Os casais que optam por viverem juntos podem solicitar quartos privados. Criaram, inclusive, uma língua em que não existem pronomes possessivos, com termos como “egoizar” para se referir a comportamentos sociais individualistas.

O sofrimento existe; É real. Posso considera-lo um engano, mas não posso fingir que não existe ou que um dia deixará de existir. O sofrimento é a condição em que vivemos.

O trabalho é organizado por sindicatos criados livremente e as pessoas escolhem com o que querem trabalhar. Não existe nenhuma moeda corrente ou comércio. As comunidades produzem e compartilham. Com capítulos que alternam entre presente e passado, vamos acompanhar a trajetória de Shevek, um dos físicos mais brilhantes do universo. Esse é um daqueles livros em que a ação não dita o ritmo da narrativa: pouco acontece do início ao fim, o suprassumo do livro está nos diálogos.

O protagonista, ao chegar na outra sociedade, logo nota todas as discrepâncias e começa um exercício de reflexão sobre a condição de vida das pessoas nos dois planetas. Em Anarres não existe classe social, então Shevek, ao visitar o outro planeta como convidado ilustre, acha muito estranho a resistência que a classe intelectual põe em relação a visitas às classes mais pobres.

A vida é uma luta e o mais forte vence. Tudo o que a civilização faz é esconder o sangue e encobrir o ódio com palavras bonitas.

Com alternância de capítulos, passamos pela infância, juventude e vida adulta de Shevek, e é aqui que a autora nos explica completamente o funcionamento de ambas as sociedades. Shevek acaba inocentemente caindo no meio de uma conspiração que visa se beneficiar de algo que só ele tem. Em Urras, outras sociedades acabam querendo seguir um caminho parecido com a ideologia implantada em Anarres, e daqui nascerão conflitos muito pertinentes à nossa atualidade.

Discussões sobre: posição da mulher na sociedade, relação de posse entre casais, entre pais e filhos, liberdade individual e coletiva, homossexualidade, consciência social, estão todos presentes diante do mecanismo em que vivem os personagens. E aqui não existem conclusões. A autora aponta os benefícios e os problemas de ambos sistemas, e o mais importante: independentemente do sistema social, os homens sempre encontram meios de exercer seu poder.